Publicado por: alaompe | 21/03/2011

Entre o bucólico e a dor

Cronica de Hilton Chaves Jr 

O exercício da medicina exige vários requisitos. O principal destes é lidar com o sofrimento alheio, aliviando-o na medida do possível. Talvez uma das maiores dificuldades do ser humano seja a de não vencer suas mazelas sozinho. Quando alguém adoece e necessita de cuidados médicos, é comum se sentir inferiorizado por precisar da ajuda de terceiros. Ou seja, “sou incapaz de resolver sozinho o meu problema”. Isso põe o indivíduo num patamar de inferioridade, dependendo do seu nível de maturidade. É curioso que, na formação médica, a morte seja o primeiro cartão de visita. O curso se inicia com a morte, e não com a vida. É nos galpões de anatomia que o susto da morte se apresenta ao jovem estudante. Ali, são dissecados cadáveres por um bom período de tempo, representando verdadeiro martírio para quem mal saiu da adolescência. É nesse período que o estudante enfrenta o primeiro grande susto no curso que escolheu. Tudo poderia ser diferente se na grade curricular, se o conteúdo se iniciasse com a Vida. Por que começar pela morte, e não pelo nascimento? Não poderia ser a obstetrícia a primeira disciplina a ser estudada? Na prática, não é assim. É com esse “susto” que os futuros médicos vão se enfronhando na desafiadora profissão e se adaptando (Deus sabe lá como!) aos traumas emocionais que esta experiência lhes inflige. Com o cadáver formolizado, dissecam-se as partes, separam-se as peças anatômicas e lida-se, apenas, com os “pedaços de João, Maria, José”. Noutras palavras, convive-se com os restos mortais, agora transformados em “bonecos”, como tentativa de superar o susto de um contato maior com a morte. É mais suportável lidar com partes separadas do que com o todo. Sofre-se menos. Mas, a fila andou. Em seguida, ao ingressar nas disciplinas clínicas, o estudante se depara com um “boneco” que se recompõe. As peças, agora, estão juntas, com aparência completamente diferente. O boneco é agora um ser vivo, igualzinho ao estudante de medicina. Ou seja, não está mais recortado. Ele agora chora, ri, se queixa, sofre com a dor física e psicológica que a doença lhe impõe e representa um clone de qualquer futuro profissional da área de saúde. Não tardará o segundo grande susto na formação do jovem estudante. Até aí, não há notícias de nenhuma preparação emocional daqueles que decidiram viver os sustos que a academia lhes apresenta. Mais uma vez, o corajoso futuro médico até tenta driblar mais uma dificuldade em sua vida acadêmica. Passa a chamar o doente com nome de doença (hipertensão, hepatite, pneumonia, infarto do miocárdio, etc) ou número de leito (leito 1, leito 9, etc). Esquece-se que não há doenças, antes, há doentes! O fato é que, sentimos um profundo incômodo quando nos deparamos com alguém bem parecido conosco, sofrendo diante dos nossos olhos, clamando por ajuda e alívio da dor. Qualquer doente é o espelho de nós mesmos. Tratamos o infartado, não o infarto do miocárdio e por aí vai. Outro dia, ouvi um colega de profissão comentar que havia atendido um paciente chato. Não há pacientes chatos. As transferências e co-transferências são uma realidade inconteste no dia-a-dia. Se algo do nosso passado remoto identificou, na atualidade, situações que nos tocam na alma, este é um problema nosso, apenas nosso. E o cuidado tem que ser redobrado, pois não podemos fazer juízo de valor desse ou daquele doente que estamos tratando. É fundamental que utilizemos outro estetoscópio, aquele que escuta mais do que ouve. Aquele que mensura a dor da alma, mais do que a dor física. Aquele que vai além da simples detecção dos ruídos cardíacos, aquele que detecta as mais diversas arritmias do Ser, aquele que é capaz de enxergar o sofrimento do outro no mais profundo respeito a este. Aquele que enxerga a perda, mesmo que esta não faça parte de nossa própria história. Aquele que é capaz de captar o sofrimento, sem necessariamente, embarcar nele, porém respeitando-o na sua mais alta essência. Todos dispomos deste instrumento. Basta descobri-lo dentro de nós mesmos. Esse estetoscópio não se compra nem se vende nas prateleiras dos supermercados nem mesmo nas melhores lojas de instrumental médico. Desenvolve-se, exercita-se, constrói-se, descobre-se, impõe-se, guarda-se lá dentro de nós para usarmos em todos os momentos, independentemente do doente que estejamos cuidando. O adoecer é uma experiência dificílima, e ser médico é, antes de tudo, ser gente que cuida de gente. Um simples e respeitoso silêncio, um terno olhar, um sincero aperto de mão, muitas vezes, é o bastante para quem sofre. O exercício da medicina convida-nos a lidar, também, com indivíduos em situações críticas. Pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva. Numa dessas UTIs da vida (e porque não dizer, também, da morte!), chamou-me a atenção uma simples janela do prédio. Um janelão no pequeno quarto do plantonista, onde ele lê os compêndios científicos à espera de uma intercorrência dos pacientes ali internados. Descobri, nesse janelão, o contraste entre o bucólico e a dor. Dessa janela, avista-se o belo rio Capibaribe, com suas águas indo e vindo, seguindo o movimento da maré, emoldurado com seus verdes e frondosos manguezais, alem de realçado por lindos pássaros, gaivotas em vôos rasantes, alguns peixes que, por vezes, saltam da água (não é um rio morto!), enfim, magnífico constraste com a realidade nua e crua de quem está do lado de dentro dessa singular janela. Cenário ímpar, mesmo paradoxal, que atenua o estresse do médico intensivista na sua nobre tarefa de lidar com os pacientes internados na UTI. Revela-nos, este panorama, que nem tudo são flores. Uma simples janela nos proporciona leituras úteis e profundas bem distantes dos sombrios galpões de anatomia e da maternidade, onde se celebra o início da vida. Ou seja, se a morte é uma necessidade natural da vida, como dizia Nelson Chaves, enquanto houver vida, lutemos por ela com o melhor que temos e somos, reconhecendo, porém, que não somos Phdeuses. E que a própria morte, quando tiver que chegar, que chegue com dignidade para todos. Para nós médicos, o janelão dessa UTI é uma perspectiva que a vida nos oferece, ajudando-nos a suportar mais um dos percalços da prática clínica diária.

 Hilton Chaves Jr. e medico cardiologista e intensivista

hchavesjr@gmail.com

Enviado por Anchieta Antunes/postado por Lenilson

 

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